Quase ninguém decide tornar-se colecionador. Compra-se uma camisola para uma final, outra nas férias, uma terceira porque estava em promoção e, um dia, damos por nós com quinze peças empilhadas num armário, das quais só usamos três. A diferença entre esta acumulação e uma verdadeira coleção não reside nem no número nem no orçamento: reside na existência de um eixo, de um mínimo de critérios de compra e de um método de conservação. Eis como estabelecer estas três bases antes de comprar a próxima camisola.
Escolher um eixo, a única decisão que importa no início
Uma coleção sem eixo é uma pilha de roupa. Um eixo é uma regra simples que decide por si se uma camisola entra ou não na sua coleção e que evita compras por impulso que nunca irá usar. Pode ser estreito ou abrangente, mas tem de poder ser formulado numa frase.
Os quatro níveis de uma coleção
Uma coleção raramente evolui através de uma acumulação contínua. Avança por etapas, e cada uma exige uma competência diferente. Saber em que ponto está evita que salte etapas, especialmente a compra de peças antigas dispendiosas antes de ter aprendido a detetar uma falsificação.
O orçamento real, sem ilusões
As ordens de grandeza abaixo correspondem ao que se observa habitualmente no mercado francês. Variam muito consoante o clube, a época e o estado, mas fornecem uma base para planear uma coleção em vez de ficar à mercê das oportunidades.
| Tipo de peça | Intervalo de preços | O que faz variar | Risco de falsificação |
|---|---|---|---|
| Camisola réplica recente | 20 a 40 euros | Clube, tamanho, estampado | Médio |
| Oficial, versão de adepto | 80 a 100 euros | Notoriedade do clube, época | Médio |
| Oficial, versão de jogador | 130 a 180 euros | Tecnologia do tecido, disponibilidade | Elevado |
| Reedição retro oficial | 60 a 120 euros | Modelo reeditado, série | Baixo |
| Original dos anos 90 | 100 a 400 euros | Estado, estampado, raridade da época | Elevado |
| Peça usada num jogo | Várias centenas e mais | Jogador, jogo, documentação | Muito elevado |
Deste quadro retiram-se duas conclusões úteis. Primeiro, o risco de contrafação aumenta precisamente à medida que o preço sobe, o que é lógico, mas raramente antecipado. Depois, as reedições oficiais oferecem a melhor relação entre prazer e segurança para quem quer artigos retro sem correr riscos: o design da época, um produto novo e nenhuma incerteza quanto à autenticidade.
Os seis critérios que determinam uma compra
Definido o rumo, falta decidir peça a peça. Estes seis critérios, aplicados por esta ordem, são suficientes para filtrar quase todas as más compras.
Uma camisola rara em mau estado vale menos do que uma camisola comum impecável. Verifique as axilas, o colarinho, as costuras das cavas e a parte inferior das costas: são as quatro zonas que revelam o desgaste real.
O nome, o número, a tipografia e os patches devem corresponder à época exata. Um estampado aplicado posteriormente faz descer o valor, mesmo que seja bem executado.
Os tamanhos M e L são os mais fáceis de revender. Os cortes dos anos 90 são muito mais largos do que os atuais: um L da época equivale frequentemente a um XL moderno.
Uma época de conquista de um título, uma campanha europeia, um golo que ficou na memória. É isso que distingue de forma duradoura duas camisolas visualmente semelhantes.
Etiqueta interior, composição, logótipo do equipamento na versão desse ano, acabamento das costuras. Se um único destes pontos não bater certo, não avance.
O critério mais subestimado. Uma camisola comprada apenas pelo seu valor de mercado acaba guardada sem nunca ser apreciada, e essa é a melhor forma de se cansar de uma coleção.
Conservar e documentar: a parte que negligenciamos
Uma coleção deteriora-se muito mais por má conservação do que pelo desgaste da utilização. Bastam três inimigos para arruinar peças que nunca foram usadas: a luz, que descolora; a humidade, que mancha e fragiliza a personalização; e o cabide, que deforma os ombros com o passar do tempo.
A documentação não custa nada e muda tudo tanto na revenda como no prazer de colecionar. Uma simples tabela é suficiente: clube, época, jogo, versão, tamanho, personalização, preço pago, data e local de compra, além de duas fotografias, uma da frente e outra da etiqueta. Ao fim de vinte peças, este ficheiro torna-se o verdadeiro inventário da sua coleção e é ele que evitará que compre duas vezes a mesma camisola em tamanhos diferentes. Para a parte física, uma forma de arrumação que protege as suas peças ao longo do tempo apresenta os métodos de dobragem e armazenamento adequados às camisolas antigas.
As réplicas e os modelos inspirados em épocas marcantes permitem construir um critério retro sem enfrentar o mercado dos originais, os seus preços instáveis e o risco de contrafação.
Explorar os equipamentos retroPerguntas frequentes
Não existe um número mínimo. Uma coleção de dez equipamentos coerentes em torno de um critério preciso tem mais valor, incluindo comercial, do que um conjunto de quarenta peças sem lógica. O que define uma coleção é a regra de entrada, não o volume. Muitos colecionadores sérios limitam-se voluntariamente para manter peças que conseguem realmente conservar e documentar.
Depende do nível. As peças recentes podem ser usadas sem hesitação; esse é, aliás, o seu interesse. Os originais antigos colocam um problema real: a personalização termocolada tem muitas vezes várias décadas e torna-se quebradiça, e cada lavagem acelera a degradação. O compromisso habitual consiste em usar as réplicas e conservar os originais, ou reservar estes últimos para algumas ocasiões por ano.
O novo garante a autenticidade, o tamanho e o estado, e continua a ser a escolha certa para tudo o que tenha menos de dez anos. A segunda mão torna-se indispensável quando se procura uma época específica que já não é produzida. A regra prática: comece por comprar novo enquanto o seu critério o permitir e passe para a segunda mão quando souber identificar uma etiqueta de época e avaliar o estado através de uma fotografia.
Algumas peças, sim; a coleção no seu conjunto, raramente. Os equipamentos que valorizam são os originais raros em excelente estado, associados a uma época marcante e num tamanho procurado. A grande maioria dos equipamentos recentes, produzidos em séries muito grandes, não irá valorizar. Construa a sua coleção pelo que ela representa para si; a eventual valorização de algumas peças será um bónus.
Começar pequeno, mas começar bem
A melhor coleção não é a mais extensa, mas aquela em que cada peça tem uma razão para estar presente. Um critério claro, seis critérios aplicados sem condescendência, um inventário atualizado e uma arrumação adequada bastam para transformar um armário cheio num conjunto coerente, que se contempla, se conta e se transmite.
O resto vem naturalmente. À medida que o olhar se apura, as compras tornam-se mais raras e mais criteriosas, e o prazer muda de lugar: já não vem da aquisição, mas da peça que procurávamos há dois anos e que acabamos por encontrar no tamanho certo e em bom estado.