As cores de um clube de futebol parecem óbvias, naturais, inevitáveis. Como se o Barça tivesse sido sempre azul e grená, a Juventus preto e branco, o Arsenal vermelho. Mas cada cor tem uma origem, e essas origens são muitas vezes mais surpreendentes do que se pensa: uma camisola emprestada por um clube inglês, fundadores escoceses que importaram as suas cores, um erro do tintureiro, uma oferta inesperada de equipamento desportivo. Aqui estão as verdadeiras histórias por trás das cores mais icónicas do futebol mundial.
As grandes categorias de origem das cores
Fundadores britânicos (ingleses, escoceses) importaram as cores do seu clube de origem ao fundar clubes na Europa.
Um clube vizinho ou uma equipa inglesa oferece equipamentos a um clube sem recursos. As cores permanecem, por vezes para sempre.
As cores do clube retomam as das armas da cidade ou da região: uma escolha deliberada de enraizamento local.
Um erro do tintureiro, um stock de tecido disponível, uma escolha arbitrária dos fundadores: algumas cores não têm nenhuma lógica inicial.
As histórias emblemáticas, clube a clube
A história mais difundida atribui as cores do Barça ao FC Basel, o clube suíço de Joan Gamper, fundador do clube catalão. Gamper, que tinha jogado em Basel antes de se estabelecer em Espanha, terá escolhido as cores do seu antigo clube para vestir o FC Barcelona. A outra versão, menos citada mas documentada, evoca a influência dos jogadores ingleses e escoceses presentes entre os fundadores, que terão querido cores que lembrassem as dos seus clubes de origem.
O que é certo: desde o primeiro jogo oficial da história do clube em 1899, os jogadores usavam azul e grená. Estas cores nunca mudaram ao longo de 127 anos, através de quatro ditaduras, duas Repúblicas, a Guerra Civil e os sucessos mais brilhantes da história do futebol.
A Juventus não usava preto e branco no início. Desde a sua fundação em 1897 até 1903, o clube de Turim jogava de rosa. Em 1903, um jogador inglês da Juventus, John Savage, contactou o Notts County (o clube profissional mais antigo do mundo, fundado em 1862) para pedir um lote de camisolas suplentes. O Notts County enviou os seus equipamentos às riscas preto e branco, e a Juventus adotou-os.
O que se tornou uma das identidades mais reconhecíveis do futebol mundial é, portanto, fruto de um donativo de camisolas usadas de um clube inglês da segunda divisão. O Notts County joga hoje na League Two inglesa, e os seus adeptos orgulham-se de ter fornecido a identidade visual da Juventus.
O PSG nasceu em 1970 da fusão de dois clubes parisienses: Paris FC e Stade Saint-Germain-en-Laye. O azul vem do brasão da Cidade de Paris, cor histórica associada à capital desde a Idade Média. O vermelho vem da bandeira de Saint-Germain-en-Laye, que se inspirou nas armas reais da cidade. O branco completa a paleta das cores nacionais francesas.
Foi assim uma fusão institucional e geográfica que produziu a identidade visual do clube. Ao contrário das grandes tradições inglesas, onde as cores surgem muitas vezes por acaso, o PSG construiu deliberadamente a sua identidade em torno de referências simbólicas parisinas e nacionais.
Na sua fundação em 1886 sob o nome de Dial Square FC, o clube londrino não tinha equipamento algum. Trabalhadores da fábrica de armamento de Woolwich criaram a equipa e não tinham camisolas nem recursos para as comprar. Dois jogadores escoceses do Nottingham Forest, Fred Beardsley e Morris Bates, que acabavam de se mudar para Londres, contactaram o seu antigo clube para pedir um donativo de camisolas. O Nottingham Forest enviou equipamentos vermelhos, que têm sido a cor do Arsenal há 140 anos.
O branco do Real Madrid vem diretamente dos fundadores do clube, maioritariamente provenientes da Institución Libre de Enseñanza, que usavam roupas brancas nas suas atividades desportivas. O branco também estava associado à tradição dos clubes ingleses, que os fundadores espanhóis admiravam. O título "Real" (Real) e a coroa no brasão foram concedidos pelo rei Alfonso XIII em 1920, o que reforçou a identidade branca associada à realeza espanhola.
As cores do Ajax são diretamente as de Amesterdão. O brasão da capital holandesa tem três cruzes de Santo André negras sobre fundo vermelho e branco, uma identidade heráldica que remonta ao século XIII. Os fundadores do Ajax, que queriam um clube enraizado na identidade da sua cidade, simplesmente adotaram as cores municipais. É um dos exemplos mais claros da influência das armas locais na identidade visual de um clube de futebol.
Por que é que estas cores quase nunca mudam
Uma vez estabelecidas as cores de um clube, elas tornam-se algo que vai além do desporto. São usadas pelos adeptos há gerações, associadas a vitórias históricas, inscritas em bandeiras, cachecóis, grafitis de bairro. Mudar as cores de um clube não é uma decisão de design: é uma decisão identitária que pode provocar reações muito fortes por parte dos adeptos.
As cores de um clube não representam o que o clube faz. Representam o que o clube é.
O exemplo mais recente e mediático é o do Cardiff City, que mudou as suas cores históricas azul e branco para vermelho sob pressão do seu proprietário malaio em 2012, antes de voltar ao azul em 2015 devido à pressão dos adeptos. Mudar as cores de um clube, mesmo por razões comerciais legítimas, continua a ser uma das decisões mais arriscadas que um dirigente pode tomar.
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