Enquanto dez jogadores de campo usam as cores sóbrias do clube, há um único homem em campo que pode permitir-se tudo. Cor-de-rosa fúchsia, amarelo fluorescente, prateado salpicado de néon, preto integral: a camisola de guarda-redes é o único lugar do futebol onde o mau gosto produziu obras-primas. Eis os equipamentos que marcaram a história e a explicação para esta liberdade que está a desaparecer.
A regra que tornou tudo possível
Tudo parte de uma restrição técnica que se tornou num campo de experiências. A Lei 4 do jogo impõe que o guarda-redes use cores que o distingam das duas equipas, dos árbitros e do outro guarda-redes. Concretamente, o equipamento que veste um clube tem de encontrar uma cor que não se pareça nem com a camisola principal, nem com a alternativa, nem com o terceiro equipamento, nem com os equipamentos de arbitragem.
Nas décadas de 1980 e 1990, esta equação deu aos designers liberdade total. Ninguém controlava a camisola de guarda-redes: quase não era vendida nas lojas, ainda não tinha importância de marketing e os fabricantes usavam-na como um laboratório. É precisamente por essa razão que as peças mais bonitas desta lista datam todas do mesmo período.
Lev Yashin, a aranha negra (URSS, anos 1950 e 1960)
A camisola de guarda-redes mais bonita da história não tem cor. Yashin jogava vestido de preto dos pés à cabeça, boné incluído, numa época em que a esmagadora maioria dos guarda-redes usava verde ou cinzento. O contraste com as bancadas, o relvado e as camisolas adversárias era total.
Esta escolha não era decorativa. Yashin saía da sua área, atirava-se aos pés dos adversários, repunha a bola com a mão: inventava a posição moderna. O preto acabou por se tornar a assinatura visual desta revolução técnica, a ponto de lhe dar as suas duas alcunhas, a aranha negra e a pantera negra. Continua a ser, até hoje, o único guarda-redes a ter conquistado a Bola de Ouro, em 1963.
A lição da camisola de Yashin é aquela que os designers modernos esqueceram: uma camisola de guarda-redes memorável não precisa de ser complicada. Precisa de ser reconhecível numa fração de segundo, a partir da última fila do estádio.
Jorge Campos, o guarda-redes que desenhava as próprias camisolas
Campos não usou as camisolas mais loucas da história: desenhou-as ele próprio. O mexicano, com 1,68 m de altura, não confiava em nenhum fabricante de equipamento para conceber os seus equipamentos e criava os seus próprios modelos com padrões em forma de pontas de seta, saturados de cor-de-rosa, amarelo, turquesa e violeta.
A sua lógica era assumida e perfeitamente racional: compensar a sua baixa estatura ocupando visualmente o máximo de espaço possível na área. Um avançado que levantasse a cabeça via uma parede de cores onde procurava uma baliza. A camisola tornava-se uma arma psicológica. Campos jogava também regularmente como avançado, o que confere à sua coleção um estatuto à parte na história da posição.
René Higuita, Colômbia 1990: o auge do género
Se uma única camisola tivesse de representar a grande época da posição, seria esta. Fundo prateado metalizado, detalhes em cor-de-rosa néon e verde fluorescente, setas axadrezadas pretas e brancas nos ombros, ombreiras almofadadas: o equipamento usado por Higuita no Campeonato do Mundo de 1990 concentra tudo o que o design dos anos 90 podia produzir de mais excessivo.
E assentava-lhe na perfeição. Higuita era o guarda-redes que saía até ao círculo central, fintava os avançados e inventou o pontapé de escorpião em Wembley, em 1995. Um jogador que recusava todas as convenções da posição não podia usar uma camisola vulgar. Era o encontro raro entre uma personalidade e uma peça de roupa.
A camisola de guarda-redes dos anos 90 era o último espaço do futebol onde um designer podia fazer absolutamente o que quisesse.
Um princípio resumido na perfeição pelos modelos de Higuita e CamposGianluigi Buffon e o cor-de-rosa da Juventus
Um guarda-redes italiano, no campeonato mais machista da Europa, no início dos anos 2000, em cor-de-rosa. A provocação era real, e a referência histórica também: antes de adotar o preto e branco em 1903, a Juventus jogava de cor-de-rosa. A camisola de guarda-redes de 2002-2003 homenageava essas origens esquecidas.
O que torna este equipamento memorável é o contraste entre a leveza da cor e a autoridade absoluta do jogador que o usava. Buffon vinha de uma época de altíssimo nível e defendia a baliza de uma equipa que chegaria à final da Liga dos Campeões em 2003. Ninguém alguma vez se atreveu a fazer uma piada sobre esta camisola durante um jogo.
Edwin van der Sar e o amarelo fluorescente do Manchester United
O amarelo fluorescente das últimas épocas de Van der Sar em Old Trafford pertence a uma lógica diferente da dos modelos anteriores. Já não há padrão, nem quadrados, nem ombreiras: apenas um bloco de cor agressiva numa linha depurada. É o design dos anos 2000 no que tem de mais eficaz.
O contexto conta imenso na memória que se guarda dele. É a camisola de um período em que o neerlandês estabeleceu um recorde da Premier League com mais de 1 300 minutos sem sofrer golos, e a da sua última grande campanha europeia. A cor tornou-se indissociável de uma forma de serenidade absoluta numa posição em que a dúvida se vê imediatamente.
As menções honrosas
Cinco equipamentos não chegam, evidentemente, para contar a história da posição. Eis outros seis modelos que regressam sistematicamente às conversas dos colecionadores.
O resumo
| Guarda-redes | Equipa | Período | Assinatura visual | Equipamento |
|---|---|---|---|---|
| Lev Yashin | URSS | 1954-1970 | Tudo preto | Nenhum (equipamento do clube) |
| Bodo Illgner | Alemanha | 1990 | Roxo e cor-de-rosa | adidas |
| René Higuita | Colômbia | 1990 | Prateado, néon, padrão axadrezado | adidas |
| David Seaman | Arsenal | 1991-1993 | Manchas multicoloridas | adidas |
| Peter Schmeichel | Dinamarca | 1992 | Geometria fragmentada | Hummel |
| Jorge Campos | México | 1990-1998 | Pontas de seta saturadas | Modelos autoproduzidos |
| Andoni Zubizarreta | Espanha | 1994 | Turquesa abstrato | adidas |
| Gianluigi Buffon | Juventus | 2002-2003 | Rosa e preto | Lotto |
| Edwin van der Sar | Man. United | 2008-2011 | Amarelo vivo liso | Nike |
Porque é que estas camisolas deixaram de existir
Surge sempre a mesma pergunta quando estes modelos voltam a aparecer: porque é que já não se fabrica nada comparável? A resposta resulta de três evoluções paralelas, e nenhuma é artística.
A camisola de guarda-redes tornou-se um produto
Na década de 1990, ninguém comprava uma camisola de guarda-redes. Praticamente não era comercializada. Hoje, faz parte de todas as gamas, tem de ser vendida, e um produto que tem de ser vendido em grande escala torna-se consensual. As cores limitam-se a três ou quatro variantes previamente aprovadas pelas equipas de marketing.
As linhas gráficas foram unificadas
A Nike, a adidas e a Puma aplicam agora modelos de coleção comuns a dezenas de clubes. A camisola de guarda-redes segue o mesmo corte e a mesma linguagem gráfica dos equipamentos de campo, com uma simples variação de cores. O laboratório criativo desapareceu em favor da coerência da gama.
A televisão de alta definição alterou as exigências
Os padrões muito carregados criam artefactos visuais na imagem de alta definição, e os canais televisivos pressionaram no sentido de cores lisas e legíveis. O que funcionava em 1990 num ecrã de tubo é pouco eficaz hoje num plano aproximado em 4K. A limitação técnica que tinha libertado os designers acabou por impor uma nova limitação.
Perguntas frequentes
O verde foi acrescentado em 1912 à lista muito curta de cores autorizadas para os guarda-redes em Inglaterra, apresentando uma vantagem prática decisiva: nenhuma equipa da época jogava de verde, o que garantia a distinção exigida pelo regulamento. A cor acabou por se impor por hábito na maioria dos campeonatos europeus até à década de 1980.
Não livremente. A cor tem de ser validada pelo árbitro antes do jogo, que verifica se se distingue das duas equipas, do guarda-redes adversário e da equipa de arbitragem. Na prática, o clube fornece dois ou três conjuntos de cores e o guarda-redes escolhe entre eles. O caso de Jorge Campos, que concebia os seus próprios modelos, pertence a uma época e a uma tolerância que já não existem.
Os equipamentos de guarda-redes raramente atingem os valores máximos dos equipamentos de jogadores de campo, cujo recorde ultrapassa os 9 milhões de dólares. As peças mais procuradas são os modelos usados em finais do Mundial e os equipamentos de Lev Yashin, extremamente raros, pois pouquíssimos equipamentos soviéticos dos anos 1960 foram preservados fora dos arquivos oficiais.
Existem três circuitos: os revendedores especializados em artigos vintage, as plataformas de artigos em segunda mão entre particulares e as réplicas oficiais quando um fabricante de equipamentos relança um modelo. No mercado de usados, verifique sempre a etiqueta interior, a tipografia do logótipo do fabricante e o acabamento das costuras; são os três pontos em que as cópias mais frequentemente se denunciam.
O mais bonito continua a ser aquele que vimos em crianças
Nenhuma classificação de equipamentos de guarda-redes obterá alguma vez consenso, e é isso que torna o tema interessante. Yashin ganha pela pureza, Higuita pela ousadia, Campos pela atitude, Buffon pela elegância. Mas a verdadeira hierarquia está noutro lugar: o equipamento de guarda-redes mais bonito da história é aquele que viu na televisão aos dez anos, numa noite de Mundial, quando percebeu que aquela posição não era como as outras.
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